O Beijo Mórbido de Bianca

Ventrue. Quando Tio Marcelo me disse que eles não eram confiáveis eu duvidei. Eu fiquei cativa na mansão do atual Príncipe da Camarilla por algumas noites depois que um grupo de Sangue-Ralo estava perdido e uma das crias de Marco, o Príncipe, nos levou até a mansão dele. Isso, de certo modo, deveria ter sido uma experiência interessante porque dizem que os Ventrue possuem muitos recursos e influência. Para o meu azar, eu conheci o lado ruim de um cainita de Sangue Azul. Já fazem meses desde que tudo isso aconteceu e eu aprendi que não posso ser tola o bastante para confiar em qualquer pessoa.

Os últimos meses na cidade que nunca dorme tem sido complicados para todos. Duas explosões, vigilância e patrulha de militares por toda a parte, movimentos universitários na faculdade e ainda não consegui falar com Eliseu, o estudante de Música. Ele é até bonitinho, mas não sei se devo mostrar minha real natureza para ele. De uma forma ou de outra, a maldição que acompanha a Família não é muito gentil como a de outros como nós. Alguns ficam furiosos, outros fascinados e alguns entram em uma espiral em suas mentes confusas. No meu caso e no caso dos meus primos, a situação é um pouco mais delicada.

As pessoas mortais acreditam que vampiros são seres que exalam poder, sedução e recursos porque são virtualmente imortais enquanto se alimentam de sangue para continuarem sendo o que gostariam de ser a cada vida que levam. No entanto, o mais me impressiona em meio a isso é que alguns de nós realmente são assim e eu os invejo porque o beijo deles gera prazer aos mortais de modo que alguns se alimentam durante relações sexuais. No meu caso, minha aparência disfarça meu apetite voraz pelo sangue fresco.

Meu curso de medicina é o ambiente perfeito para mim porque sei que as pessoas jamais vão suspeitar de mim caso eu esteja suja com um pouco de fluidos corporais. Me tornar uma médica legista vai ser o suficiente para manter o segredo sobre minha natureza e, para a minha sorte, eu ainda tenho muitas pessoas com as quais eu me importo. A parte divertida é o que acontece quando eu não me importo com alguém e, para isso, o meu rostinho bonito serve para alguma coisa assim como o corpo que vai me acompanhar pela eternidade.

Algumas noites atrás eu encontrei um rapaz em um bar perto da universidade. Todo bronzeado, tatuado, alto e com um sorriso de que poderia acabar com a minha vida se eu ainda estivesse viva. Eu falo como se eu fosse uma vampira muito velha, mas eu entrei para a família a menos de uma década. Enfim, ele estava lá sozinho no balcão do bar apenas observando o ambiente sem muita noção do que faria naquela noite. Como a boa italiana que sou, estava com um vestido curto, meu salto e com o cabelo trançado sobre meu ombro bem diferente do que costumo usar na faculdade que exige que eu fique de jaleco quase que o tempo todo.

Quando eu vi que ele me notou, sem pestanejar, eu me aproximei dele e me sentei em um banco ao lado dele. Lendo a aura do belíssimo mortal, eu vi que ele parecia muito triste ao ponto de ficar melancólico com o que estava sentindo. Começamos a conversar aos poucos e ele me disse que havia perdido um familiar próximo, acho que uma tia, que ele não via fazia muito tempo. A cada vez que ele falava sobre seu luto, eu ficava ainda mais sedenta pelo sangue mórbido que no momento correia pelas veias do mortal inocente que estava aos poucos cedendo aos meus dotes femininos.

Algum tempo depois, nós fechamos as nossas comandas e eu pedi que ele me levasse para algum outro lugar mais reservado e ele me levou até meu apartamento. Eu disse para que ele me esperasse na sala de estar enquanto eu preparava algo para que ele não tivesse uma ressaca muito pesada no outro dia porque, no final das contas, a faculdade de medicina tem que servir para alguma coisa. Ele ficou esperando enquanto observava a organização e perguntava sobre os quadro, as estátuas e sobre a decoração um tanto quanto gótica e eu apenas disse que é um costume de família. Depois de alguns minutos preparando algo quente para as noite fria que fazia em Amaya, eu comecei a me abrir com o mortal cujo nome é totalmente irrelevante.

Quando eu me sentei ao lado dele começamos a compartilhar nossos sentimentos e meu sangue pulsou ao ponto de eu ficar mórbida e interessada como a pessoa que ele perdeu veio a óbito. Eu comecei a ficar ainda mais curiosa vendo que ele estava soluçando de tanto chorar e foi neste momento que eu entendi o que a minha besta interior tanto desejava: tornar a agonia emocional em uma dor física. As veias negras com sangue amaldiçoado de Cain fluindo pelo meu corpo me levaram até o pescoço do mortal que tentava gritar, mas eu tapei seu maxilar ao ponto de deslocá-lo para morder sua jugular e me alimentar de seu sangue banhado em uísque barato. Quando me dei conta, não havia mais sangue nele. Eu o matei.

Eu senti a agonia dele se tornando física. Eu senti o poder de Cain fluindo pelo meu corpo não-vivo. Eu entendi o que significa ser uma cainita e isso me deixa depressiva. A agonia que eu causo às pessoas pode se voltar contra mim. Há um corpo no meu sofá que eu não consigo parar de olhar para compreender o que houve para que ele chegasse a este estado. As expressões de pavor e o corpo largado após sentir que seriam seus últimos suspiros permanecem ali mesmo que meus primos tenham tirado o cadáver do meu apartamento.

Meu beijo é agoniante para os mortais. A agonia me alimenta e o cadáver me impulsiona. Esta é a minha maldição por ter sido intrometida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: